
Como seria a competitividade de uma organização com as seguintes características: a incerteza faz parte do seu cotidiano, o risco está presente ao ponto da organização comprometer suas receitas, mercado e até sua imagem, e as pessoas têm parte do tempo livre para se dedicar a atividades que estão absolutamente fora do atual mercado e/ou modelo de negócios da organização. Esta pergunta foi direcionada a uma sala de aula com sessenta executivos de primeiro escalão de empresas em um MBA (Master of Business Administration, na sigla em inglês) de uma universidade. A resposta foi objetiva. Essa organização não está alinhada às modernas diretrizes empresariais e, com certeza, sua vida empresarial será breve. Na semana seguinte uma nova pergunta foi feita aos sessenta executivos do curso – Qual a competitividade de uma organização que não inova? – E a resposta, muito objetiva também. Essa organização não está alinhada às modernas diretrizes empresariais e, com certeza, sua vida empresarial será breve.
Para esses sessenta alunos do MBA, curiosamente, a incerteza, o risco e a liberdade criativa estão dissociados da inovação, afinal esses atributos são conceitos bastante antagônicos à certeza, segurança e direcionamento que as organizações necessitam para conduzirem uma estratégia de sucesso. A inovação virou tema e pauta nas principais reuniões, tendências e prática das empresas, governos, universidades e organizações do terceiro setor. Nunca se propagou tanto a importância de se inovar e, nessa propagação, muitas vezes o encantamento e o modismo ofuscam importantes pressupostos contidos nesse tema. Acredita-se que com mais leis, incentivos, fomentos, estudos ou novos métodos de gestão, que a inovação se materializará produzindo benefícios a todos. Atributos tangíveis como esses são importantes, mas não são suficientes para gerar a inovação. Uma lei não pode mudar uma mente, mas uma mente com novas ideias pode mudar muitas coisas.
Inovar, em suas diversas concepções, mais do que gerar e produzir o novo com sucesso, significa também correr riscos, conviver com a incerteza, gerar ideias e conviver com os erros e fracassos. Isso são atributos ligados ao comportamento humano, não dependem de leis ou incentivos, mas são favorecidos por estes. Como em um paradoxo de nosso tempo, as organizações agora propagam a importância da inovação, algumas até se sentem acuadas, tamanha a importância que se dá ao tema, mas na aplicação real do dia a dia, ainda utilizam um sistema anti-inovação que não estimula a criatividade, que não cria um ambiente propício às novas ideias e até mesmo ao erro, onde os incentivos são de curto prazo ou alinhados dentro de um orçamento rígido, a hierarquia é que determina o que é certo ou errado, e onde o tempo das pessoas está 110% comprometido com as operações e metas dos processos organizacionais.
A inovação realmente só floresce quando se muda um modelo de pensamento, as leis e incentivos ajudam, mas não são suficientes. Nesse novo modelo mental, a competição dá lugar à colaboração, a hierarquia dá lugar ao trabalho em rede, a rigidez se transforma em liberdade, o risco significa oportunidade e o medo de errar representa aprendizagem.
Nesta era da inovação o mundo está aberto ao novo, e agora é possível fazer diferente, cabe agora a cada indivíduo, empresa ou organização definir o seu papel, zelando para que este tema, a inovação, seja a oportunidade de melhoria tão almejada pelos sistemas sociais e econômicos de nosso tempo.
Paulo Renato Cabral é presidente do Instituto Inovação, onde trabalha com governo, centros de pesquisa e empresas para apoiar a geração da inovação. Formado em Engenharia Metalúrgica e de Materiais pela UFMG.
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Revista Conhecimento & Inovação
ISSN 1984-4395